Mundo Real x Mundo Virtual
- autistaaos54
- 24 de jan.
- 5 min de leitura
Atualizado: 28 de jan.
Uma coisa interessante, pelo menos em relação a mim, é que me saio muito melhor no mundo virtual que no mundo real.
Sendo uma pessoa introspectiva, tímida e, de certa forma, receosa com relação a contatos reais, olho no olho, eu me saio muito melhor no mundo virtual e, mesmo assim, melhor na escrita que no vídeo. Na escrita tem o tempo de espera entre mandar a mensagem, a pessoa receber, ler, pensar no que vai responder e realmente escrever; segundos preciosos que me ajudam a pensar na próxima mensagem e manter a conversa fluindo. Percebo isso em um aplicativo de jogos de cartas que uso para me distrair jogando truco, canastra, pife etc. Durante os jogos, a gente acaba batendo papo na mesa, ou depois, em uma janela de bate papo que tem no aplicativo. É fácil, também, pelo whatsapp, onde eu prefiro escrever a gravar áudios. Quando tenho que gravar áudios para ficar mais fácil de contar alguma coisa, geralmente, dou uma formulada em boa parte do que eu preciso falar, isso porque, além da dificuldade na fala, quase sempre entrecortada, tem, também, a questão da continuidade do pensamento. Devido à sequela deixada pela meningite bacteriana que tive aos seis meses de vida, tenho esses dois problemas na hora de falar as coisas. Então, quando vou conversar com alguém por chamada de vídeo tenho sempre o problema de não conseguir ficar olhando para a pessoa o tempo todo.
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Com relação ao mundo real, é sempre um problema a questão de ir a festas, encontros, bares etc., pois acabo não participando das conversas como todo mundo. Para terem uma ideia, vou relatar uma experiência que tive recentemente juntando o mundo virtual e o real:
Entrei em um desses vários aplicativos de relacionamento que existem hoje, o que eu penso ser uma coisa mais estranha do alguns dos meus comportamentos - em vez de a gente sair... ops, quer dizer, a gente não, as pessoas saírem para xavecar ou paquerar em bares e boates na cidade; eu quase nunca saio; nos tornamos parte de um cardápio nesses sites, onde colocamos fotos nem sempre reais, escrevemos coisas para tentar nos descrever e descrever o tipo de pessoa com a qual queremos nos relacionar, esperamos que uma outra pessoa goste de tudo aquilo que expusemos ali e comece um bate papo.
Pois então, eu dei sorte de encontrar uma mulher lá e nós começamos a trocar mensagens pelo bate papo do aplicativo. Até então, tudo bem, era o meu ambiente seguro, o papo estava fluindo bem. Era um sábado que estava se aproximando das 18 horas, então resolvi arriscar:
Vamos nos encontrar nesse shopping que tem ai no seu bairro, para a gente se conhecer, bater um papo, comer alguma coisa?
Na verdade, esse shopping é um pouco longe da minha casa, mas tem um bar mais perto daqui que hoje tem uma banda de rock tocando lá. Se quiser, a gente pode ir.
Então, fiquei logo animado, afinal, esse é o tipo de ambiente que eu passei a me sentir bem, apesar de ser um bar. Ali estou indo para assistir à banda tocar as músicas que eu gosto, comer alguma coisa e bater papo com quem está na mesa comigo. Geralmente, um ambiente menor e mais fácil de eu administrar. Mas ainda havia o problema de ser um lugar totalmente desconhecido para mim e muito longe da minha casa, mas resolvi ir. Acertamos os detalhes para saber como nos reconhecer e marcamos o horário. No horário marcado, eu estava na frente do bar esperando por ela, foi realmente fácil essa parte. Então, dei um beijo no rosto dela e entramos para procurar uma mesa. Instalados, resolvi pedir uma porção do cardápio para comer e algo para beber, conversamos um pouco, fiz alguns poucos comentários sobre os bares que frequentava para ver as bandas, de quais gostava de assistir e, logo em seguida, a música começou, muito alta. Depois de um tempo, fiz mais um comentário: parece que eles são fãs mesmo dessa banda, de cada cinco músicas que tocam, três são dela e esse foi meu último comentário na noite. Chegamos lá às 10 e ficamos até uma ou uma e meia da madrugada e eu não troquei mais uma palavra com ela, simplesmente, não conseguia pensar em mais nada para comentar, ou puxar assunto sobre alguma outra coisa. Comecei a ficar incomodado com aquilo por volta da meia noite, mas aí já havia passado tempo demais para eu tentar alguma outra coisa. Ainda bem que ela estava de costas para mim, assistindo o pessoal tocar e não viu a minha cara de decepção. Decepção, também, porque, na verdade, queria estar com outra mulher ali, não ela. Nós havíamos brigado e estávamos há vários dias sem nos falar. Eu sentia muita falta dela e, a todo momento, olhava a tela do telefone na esperança de que ela tivesse me mandando uma mensagem salvadora para me tirar dali. Não foi o caso. A banda acabou de tocar, pagamos a conta e, na saída do bar, com aquele sorriso amarelo, sugeri: bom, depois de falar na sua cabeça a noite toda, deixa eu, pelo menos, levar você em casa. Ela aceitou e foi me mostrando o caminho. Uma vez na porta da casa, ela me agradeceu, me mostrou como pegar a avenida de volta para o caminho da minha casa e foi isso: muito obrigado, a gente se fala depois. Nem beijo no rosto de novo para despedir teve.
Arranquei o carro balançando a cabeça, fazendo aquela cara de tristeza e de derrota, comecei a pensar, de novo, na mulher com quem queria estar realmente. Me distraí tanto que, de repente, percebi que não estava em uma avenida e não havia sinal de que havia uma ali por perto. Parei o carro e coloquei o nome de uma avenida que eu sabia fazer parte da rota que precisava pegar. Em seguida, a voz do GPS começou a me dar a direção: vamos virar a esquerda na rua tal e, logo em seguida a esquerda. Então, virei a primeira à esquerda, em seguida a voz de novo: vire à esquerda na rua.... e o primeiro nome da rua era exatamente o nome da pessoa que passei a noite toda pensando nela. Não acreditei e parei o carro para pegar o telefone e confirmar, o nome era aquele mesmo, o nome dela. Tive que sorrir enquanto balançava a cabeça. Coloquei o telefone de volta no suporte e segui o caminho, sorrindo. Pensei: é cara, dentre um milhão de nomes possíveis, você foi parar em uma rua que te fez virar em uma rua exatamente com o nome dela. Como isso seria possível? Preciso arrumar uma maneira de fazer contato com ela, me desculpar pelo ocorrido e tentar reatar o relacionamento.
No dia seguinte, mandei mensagem para a mulher do bar pelo aplicativo do site de relacionamento para pedir desculpas pela noite estranha e não obtive resposta, fiquei aliviado. Excluí o meu perfil do site e foquei em como fazer para voltar a bater papo com a mulher que realmente me importava. Não foi fácil, pois o que fiz foi desnecessário, nada físico, mas verbal e isso machuca tanto quanto.
Felizmente, consegui fazer com que ela me respondesse e retomamos as nossas conversas aos poucos. Prometi mudar completamente o meu comportamento e estou me esforçando bastante para isso. Até agora, tudo bem, espero que continue assim.
LUFA

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