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Mais uma sequela

  • autistaaos54
  • 11 de abr.
  • 4 min de leitura

A minha vida toda, passei falando que a meningite bacteriana que tive aos seis meses de vida havia me deixado como sequelas a falta de memória, a falta de concentração, a baixa, ou nenhuma sensibilidade do lado direito do corpo e a sintonia fina dos dedos da mão direita. Agora, aos 57 anos, descobri mais uma, a bexiga preguiçosa, ou bexigoma.

Bexigoma é uma condição caracterizada pelo aumento excessivo de volume da bexiga devido à retenção significativa de urina. Ocorre quando a bexiga não consegue se esvaziar corretamente, tornando-se distendida e palpável na região inferior do abdômen.

Sempre reparei essa condição em mim – eu vou ao banheiro urinar, mas o jato não sai com força, nem em quantidade normal, alguns minutos depois, volto ao banheiro para fazer mais um pouco. Isso acontece desde sempre. Não sei se, por causa disso, dessa bexiga relaxada, eu fazia xixi na cama até os meus 12 ou 13 anos. Lembro que, às vezes, meus pais levavam a gente para passar uns dias na fazenda de um casal amigo no interior de Minas e eu via a minha mãe estendendo um plástico grosso em cima do colchão antes de fazer a cama onde eu ia dormir. Tenho a lembrança, também, de uma vez ter ido dormir na casa do filho da minha psicopedagoga em um condomínio chique na estrada de BH para Nova Lima. À noite, tive muita dificuldade de dormir, provavelmente, estava estranhando o quarto diferente, a cama diferente, mas tenho certeza de que me deitei na cama e dormi, pois, no dia seguinte, vi o colchão encostado em um muro para pegar sol. Na época, eu não entendi o motivo, hoje sei que ele estava ali para secar e tirar o cheiro do xixi que fiz durante a noite.

Voltando para o presente, imagina essa situação de retenção urinária ocorrendo dos 10 até agora, aos 57 anos!

Foi só agora, nessa idade, que reparei esse volume duro na parte inferior do abdômen, mas nem foi por causa dele que procurei o urologista. Já há algum tempo, percebi que, sempre que eu ia ao banheiro urinar, me dava vontade de defecar também. Então eu me sentava no vaso e, realmente, fazia. Aí fiz o que todo mundo faz hoje em dia – perguntei ao Dr. Google. Quando vi que era uma situação preocupante, marquei consulta com o urologista, que percebeu o inchaço na barriga. Ele insistiu para que eu saísse do consultório e fosse direto para uma clínica fazer um ultrassom. Na cama, ao lado do monitor onde o médico via as imagens e ia ditando os valores para a assistente dele fazer as anotações, ouvi ele falando as medidas da próstata, normais, e o volume de urina na minha bexiga, incríveis 1.800ml de retenção! Então pediu que eu fosse ao banheiro esvaziar a bexiga. Fiquei lá algum tempo, mas não o suficiente para esvaziar tudo. Voltei para a cama comentando que a vontade havia passado completamente. Ele olhou de novo no monitor e disse: não esvaziou nada. Então, me dispensou falando que ia pedir para emitirem o laudo imediatamente, para que eu voltasse ao médico e ver o que fazer. Este, vendo a gravidade da situação, me encaminhou para um colega de profissão com mais experiência que ele nesses casos de bexigoma.

A consulta com esse outro médico foi em uma quarta-feira à tarde. Levei todos os ultrassons anteriores e um exame chamado urodinâmica que havia feito em 2019. Ele viu todos os valores se repetindo nos ultrassons e me disse, preocupado: o seu caso é muito grave, sua bexiga está com a capacidade 5 vezes maior do que o normal da bexiga humana, 500ml. Os seus rins estão inchando com a sobrecarga de atividade por causa dessa retenção de urina. Amanhã de manhã, sem falta, você vai ao prédio da Unimed lá na Contorno, onde vou estar atendendo, para fazer exames de sangue e de urina e um novo ultrassom. Tudo certo com os exames de sangue e de urina, mas o ultrassom continuou mostrando o mesmo problema. Faltava fazer, agora, uma nova urodinâmica. Como esse exame só poderia ser feito em um dia posterior àquele da consulta, ele disse: vamos precisar colocar uma sonda aí, para você manter a bexiga vazia, não tem jeito de ficar assim mais.

Então, coloquei a incômoda sonda e voltei ao consultório dele para decidir o que fazer em seguida. Fiquei assustado, pois, imediatamente a bolsa foi enchendo enquanto a gente conversava. Encheu até os 1.800ml! Fui ao banheiro esvaziar e voltei para casa. Fiquei chateado com aquela situação de ter que andar por aí com uma bolsa pendurada na calça e um cano da grossura de um canudo de plástico enfiado na uretra. Mas realmente, não tinha o que fazer, era um problema neurológico e eu não poderia ficar mais com a bexiga cheia daquele jeito por mais tempo. No dia seguinte, à noite, fui ao cinema com as minhas 3 filhas e estava falando para a mais velha a respeito da nova descoberta. Expliquei que a bexiga humana tem aquela capacidade de armazenamento, mas quando ela não consegue esvaziar completamente e você toma mais líquido, em vez de transbordar, ela começa a inchar. Então, se você toma 500ml de água, depois vai ao banheiro e só elimina 250ml, o restante fica ali, depois você toma um copo de 500ml de refrigerante, ou suco. Agora já são esses 500 ml mais os 250ml que ficaram da primeira vez, sua bexiga passa a ter a capacidade de armazenar 750ml de urina. Logicamente, isso acontece durante um período longo de tempo, como esse meu.

Para vocês entenderem a loucura que é a minha bexiga: chegando ao shopping, fui ao banheiro esvaziar a bolsa, compramos refrigerante e pipoca e fomos para o filme. O meu copo devia ser de 750ml, mas não tomei ele todo. Ao final do filme, fui ao banheiro e esvaziei a bolsa mais uma vez. Fiz um trajeto de cerca de 10 km entre as casas das minhas filhas, sem trânsito, antes de voltar para casa, quando olhei a bolsa novamente, ela estava com 500ml, esvaziei antes de dormir. Quando acordei, no dia seguinte, ela estava com 1.800ml!

Agora é fazer o exame de urodinâmica e torcer para haver uma solução que não seja ter que andar, pelo resto da vida, com essa bolsa e esse canudo de plástico me acompanhando.

 

LUFA

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