top of page
piscina

Preencha os campos abaixo para receber uma notificação quando um novo texto for publicado. (todos os campos são obrigatórios)

Buscar

Lembranças perdidas

autistaaos54
15 de ago.
4 min de leitura

Um dia em que estava andando de carro com as minhas filhas e passando pelo bairro onde minha família morou por cerca de 53 anos, o Sion, disse a elas: não existe mais nada que lembre o que, um dia, foi a casa do avô de vocês. Quando passei na frente do terreno onde ficava a casa, elas lamentaram, vendo tudo completamente modificado: que triste! Tenho muitas lembranças boas dessa casa. Foi a casa mais aconchegante que já entrei, disse uma das minhas filhas,

Tenho que concordar com ela em tudo o que disse.

Comecei a lembrar das histórias que conheci e vivi: as festas do tempo de adolescente; as festas com os amigos da família, que sempre acabavam com a minha mãe, ou irmãs, tocando violão em uma roda de chorinhos e MPB, que sempre contava com a companhia dos amigos mais chegados; da excelente comida da Didi e do cuidado que ela e a irmã, Eva, tinham com a gente; campeonatos de futebol de botão com alguns amigos da rua; futebol na rua Valparaíso, onde a gente pintou um campinho, o qual recebeu o nome de “asfaltão”; as minhas fantasias de me tornar um grande baterista só porque conseguia acompanhar as músicas do KISS, meu grupo de Rock preferido, batendo as baquetas no ar; comemorações de Natal com as famílias do meu pai e da minha mãe, inclusive, com tias vindo do Rio de Janeiro.

...E daquelas que conheci de ver e ouvir os mais velhos contarem: meu pai, por exemplo, ficou horrorizado quando soube que a minha tia havia comprado aquele terreno onde depois construiu a casa, em um local onde era puro mato, ruas de terra, pinguela para atravessar um riacho que passava na rua Valparaíso, o qual está canalizado, mas sempre enche de água a garagem de um, ou dois prédios quando chove demais. Mas depois, ele próprio comprou a casa da minha tia quando eu nasci e a outra casa, na rua Campanha, no bairro Carmo, ficou muito pequena e velha demais, para uma família, agora, com 4 filhos. Além do mais, eu precisava de um lugar melhor, como aquela rua havia se tornado, para me recuperar da meningite bacteriana que tive aos 6 meses de idade. Conheço a casa da rua Campanha só por fotos antigas. Fiquei lá os seis meses, fui para o hospital, morri, ressuscitei, e quando saí, já foi para a casa da rua Venezuela. A Denise, única remanescente da família que morava na casa ao lado; irmã afetiva de todos nós, cujos pais eram, também, irmãos afetivos dos meus; contou que havia quermesses no quarteirão das nossas casas, onde havia leilões de tudo quanto era tipo de bugigangas e que ela, uma vez, deu um rombo no bolso dos pais por arrematar um conjunto de canas de açúcar que a sua mãe achou caro demais. A mãe dela, inclusive, reclamava bastante quando o outro filho, Bernardo, chegava em casa todo sujo de barro, ela esbravejava algo do tipo: olha onde o Alceglan foi enfiar a gente, nesse fim de mundo!

Uma outra moradora, tão antiga quanto as nossas duas famílias, falou que não havia comercio próximo e que quando precisavam comprar pão, por exemplo, tinham que descer quase 2 quilômetros até a avenida que circulava a cidade original, quando essa foi fundada em dezembro de 1897.

A linda paróquia da comunidade do Carmo, fiquei sabendo, só foi concluída em 1965.

Todas essas histórias e quantas outras mais vividas por essas duas famílias ali na rua Venezuela perderam de vez as referências de onde tudo isso aconteceu. Quando os pais da Denise faleceram, ela tentou manter a casa durante um tempo, mas logo desistiu devido aos gastos excessivos. Então, uma construtora ofereceu para comprar os dois terrenos, o da casa dela e o nosso, para construir um prédio. Mas quando meu pai soube que seria um apartamento para ela e um para seus quatro filhos, desistiu do negócio. Resultado: a Denise vendeu o terreno da casa dela, construíram um prédio e ela tem um apartamento lá.

Metade da memória havia se perdido.

Meu pai resistiu com uma válvula de porco no coração por 21 anos, falecendo em novembro de 2021. Nós também, tentamos manter o imóvel por algum tempo, mas encontramos o mesmo obstáculo da casa que não existia mais no terreno ao lado; então vendemos para o que parecia ser uma empreiteira simples, mas com dinheiro para investir. A pessoa, um único responsável pela obra, derrubou cada pedaço de lembrança que havia naquelas paredes, levantou um prédio parecido com o novo ao lado direito dele, embaixo, construiu duas lojas, apagando, por completo, quaisquer memórias que já existiram ali. Uma nova geração de histórias será construída, novas famílias, novas lembranças. Das antigas gerações, só sobraram os números dos terrenos – número 171, a casa da esquina, e número 181, a minha casa; ah... e o nome do edifício do número 171, que leva o nome da mãe da Denise.

LUFA

 
 
 

Posts recentes

Ver tudo
Amor impossível

Tem vezes que eu daria tudo para, realmente ser uma pessoa normal e conseguir ter um relacionamento “normal”. Mas parece que, como autista, as minhas limitações sempre vão construir barreiras para atr

 
 
 

2 comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
Convidado:
15 de ago.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Que lindo relato!! Esperando o livro do Sion ser publicado, inclusive com esse texto! Vamos conversar sobre isso!😉

Curtir
Lufa
15 de ago.
Respondendo a

Oi, obrigado pelo retorno. Até escrevi um livro sobre o bairro Sion, mas ele não foi aceito pela editora, então, acredito que esse relato ficará só por aqui mesmo.

Curtir
bottom of page