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Amor impossível

autistaaos54
4 de out.
3 min de leitura

Tem vezes que eu daria tudo para, realmente ser uma pessoa normal e conseguir ter um relacionamento “normal”. Mas parece que, como autista, as minhas limitações sempre vão construir barreiras para atravancar esse caminho.

A essa altura da vida, como não dizer à pessoa que eu faço parte do espectro autista? Como não esperar um afastamento dela por saber das dificuldades de convivência e da falta de capacidade de desenvolver sentimentos?

Recentemente, entrei em um grupo de namoro no Facebook, coloquei algumas fotos, um texto legal e esperei. Para a minha surpresa, o tempo de resposta e de interação com as mulheres foi muito mais rápido do que os aplicativos exclusivos para namoro. Respondi algumas mensagens ali mesmo e selecionei algumas mulheres para bater papo pelo Messenger. Com uma delas, o papo evoluiu de maneira interessante, depois de algum tempo trocando mensagens pelo whatsapp, resolvemos marcar de nos encontrar pessoalmente. Ela havia me dito que seu ex-marido tinha muitos traços de autista – raciocínio lento, dificuldade para tomar decisões, enjoava das coisas depois de algum tempo, não a abraçava direito – mas ele não quis responder aos questionários para ver em qual grau estava, pois ele é um autista “funcional”, trabalha “normalmente”. Ela me disse que passou por várias situações ruins e constrangedoras com ele, pois além disso tudo, ele não conversava abertamente sobre o problema com ela. Mas enfim, marcamos de nos encontrar.

Enquanto a gente estava conversando pelo whatsapp, falei que me sentia muito melhor conversando ali do que pessoalmente, por causa da minha timidez e da minha insegurança. Mas quando nos encontramos, ela me deixou tão à vontade que eu relaxei e consegui bater papo tranquilamente e até coloquei a mão na perna dela, na altura do joelho. Ela, notando que eu estava relaxado, comentou: não estou achando você travado, como comentou que estaria. E eu: é, realmente, não estou e agradeço a você por isso.

Ficamos algumas horas batendo papo sentados no banco da praça, falando mais algumas coisas sobre trabalho, relacionamento, autismo e então ela precisou ir embora. Me pediu que eu a acompanhasse até a moto dela e, antes de colocar o capacete, falou: quer comentar mais alguma coisa, fazer algum pedido? Eu, sorrindo, ainda relaxado, pedi: então eu quero um beijo. Ela sorriu e atendeu ao meu pedido. Foi um momento mágico – aquele encontro, o bate-papo, o beijo no final.

Mas aí vieram os dias seguintes.

Eu, todo animado, fui tentando arrumar situações para que a gente se encontrasse novamente, na esperança de que pudéssemos nos conhecer cada vez mais, ficar mais íntimos etc.; ela se esquivando, tentando dificultar as minhas sugestões de encontro, então fiz uma pergunta séria a ela: talvez, você não esteja disposta a passar por toda aquela situação novamente. Estou certo? E ela: Sim, é verdade. Tenho pensado nisso muito esses últimos dias e, realmente, fiquei bastante desgastada com o esse meu relacionamento, não quero correr o risco de passar por tudo isso de novo.

À princípio, me despedi ali mesmo depois de mais algumas mensagens, falei que preferia não continuar conversando com ela, pois não tenho inteligência emocional suficiente para encontrar e bater papo com ela só como amigo. Porém, depois de algum tempo, me ocorreu  de apresentar uma argumentação a ela e mandei mensagem de novo. Falei:

Eu sei que você não conseguia conversar com ele sobre as dificuldades visíveis que apresentava, mas não queria aceitar e muito disso por birra dele. Da minha parte, a descoberta de que faço parte do espectro autista foi um alívio, pois me respondeu várias questões que fui fazendo durante toda a minha vida. Posso garantir a você que jamais deixarei de conversar a respeito de qualquer coisa. Você, mais do que ninguém é a pessoa ideal para eu me relacionar, pois tem experiência de sobra para me ajudar a melhorar e mudar o meu comportamento. Quando estivéssemos discutindo sobre alguma coisa e você percebesse que não estava dando certo, poderia parar a conversa e falar – “Nando, acredito que essa conversa não está boa, você está ficando chateado e incomodado com a situação. Vamos sentar e tentar resolver essa questão?”

Ela agradeceu a minha sinceridade e a minha coragem por falar daquele jeito, disse que me achou bonito e que se sentiu atraída por mim, mas manteve a decisão de não querer se relacionar com um autista novamente. Enfim, como diz o ditado – gato escaldado tem medo de água fria. Desde então, não conversamos mais e acredito que não conversaremos, já que eu escolhi não conversar com ela só como amigo.

Como disse Freddie Mercury em “The Show Must Go On” – por dentro meu coração está quebrado, minha maquiagem está borrada, mas o meu sorriso ainda permanece.

 

LUFA

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