O autismo e suas consequências (principalmente, quando é descoberto bem mais tarde)
- autistaaos54
- há 2 dias
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Fui me descobrir autista muito tarde, aos 54 anos. Até que essa descoberta fosse feita, muita coisa aconteceu em minha vida. Muita dificuldade de entendimento e de aceitação - por que as coisas são assim? Por que não dou conta de fazer o que me pedem?
O mais difícil é você parecer uma pessoa normal, mas ter as limitações, emocionais e práticas, decorrentes do autismo. Se você me visse na rua, dificilmente falaria que faço parte do espectro. Realmente, tive que me adaptar ao mundo. Algumas coisas, fui fazendo como os outros faziam em determinadas situações para não parecer estranho.
Mas e quando algumas reações são confundidas, ou tidas, de maneira equivocada, como sendo parte de sua personalidade?
Uma das características do autista é ter o limiar baixo para a frustração. E no que isso implica? Faça uma pesquisa rápida na internet - escreva lá: "qual a reação de uma pessoa com limiar baixo para frustração", e descobrirá. Mas já adianto algumas coisas aqui, para você não perder o fio dessa meada:
"Pessoas com baixo limiar de frustração reagem de forma intensa e desproporcional a obstáculos, manifestando irritabilidade, impaciência, raiva, tristeza ou desistência rápida, pois têm dificuldade em lidar com o que foge do planejado, sentindo que desafios cotidianos são intransponíveis e levando a estresse e insatisfação constante. Elas buscam o caminho mais fácil, culpam a si ou aos outros, evitam riscos e podem ter explosões emocionais diante de pequenos problemas, afetando relacionamentos e objetivos.
Reações Comuns:
Emocionais: Choro, tristeza profunda, sentimentos de injustiça, ansiedade, desesperança, irritabilidade excessiva, raiva intensa,."
Vamos por partes:
Várias vezes já chorei tentando explicar algum comportamento, reação, ação ou a falta dela diante de uma situação, mas isso não agride a pessoa com quem você está conversando. Já senti muita tristeza devido aos diversos fatores decorrentes dessa falta de ação e/ou reação apresentadas nas situações, mas isso também não agride a pessoa. Sou ansioso, muito. Aí vem o que me chateia mais por não conseguir controlar: irritabilidade excessiva e raiva intensa.
Então você descobre que aquela reação, aquele acesso de raiva que você teve enquanto conversava com a pessoa de quem tanto gosta não é parte "da sua personalidade" enquanto pessoa, mas sim da impaciência em decorrência do espectro autista. Pior ainda é você perceber que reagiu daquela maneira, mais uma vez, e isso pode ter lhe custado uma vida inteira de crescimento e construção de memórias ao lado daquela pessoa, afinal de contas, aquela não foi a primeira vez que você teve esse acesso de raiva. E em todas as vezes que você reagiu dessa maneira, na impulsividade, falou coisas que não devia, que não queria. Mas você fez e agora está longe daquela pessoa, pois só foi procurar resposta para isso depois de uns 20 dias do ocorrido. Na tentativa desesperada de consertar as coisas, arrumar uma justificativa para aquele episódio, você manda prints dessas páginas para que ela leia e tente entender e/ou aceitar que aquela reação sua não é de uma pessoa violenta, mas sim de uma pessoa que faz parte do espectro autista.
Mais do que isso, no mesmo print, descobriu que existem formas de trabalhar isso e que, com a ajuda de uma outra pessoa, que você gostaria imensamente que fosse ela, tenta convencê-la de voltar e dar uma chance a vocês dois. Mais uma vez, chorei, como chorei algumas outras vezes tentando explicar a ela as minhas reações diante dessa ou daquela situação.
E aí, como dormir tranquilo sabendo que a pessoa que você tanto gosta já pode estar em outro relacionamento, com uma pessoa "normal", que vai conseguir conversar e resolver os problemas que aparecerem sem precisar ficar gritando, tendo acessos de raiva, ou chorando?

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